No contexto do Dia Mundial do Sono, assinalado a 13 de março, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) criou a Secção Especializada em Medicina do Sono, com o objetivo de afirmar esta área como um pilar estruturante da prática psiquiátrica.
A presidente da Secção, Marta Gonçalves, explica que “as perturbações do sono são extremamente prevalentes na prática clínica em Psiquiatria e influenciam a expressão clínica, o prognóstico e a resposta terapêutica, mas continuam muitas vezes subvalorizadas”, sublinhando que a nova estrutura nasce da necessidade de promover formação, investigação e boas práticas clínicas.
Também a vice-presidente, Joana Isaac, destaca que a Secção pretende apoiar os psiquiatras “na aquisição de competências que lhes permitam fazer a avaliação do sono de forma sistemática na consulta, clarificar diagnósticos diferenciais complexos e orientar decisões terapêuticas”, reforçando ainda a importância de uma articulação consistente entre saúde mental e Medicina do Sono, de modo a reduzir abordagens exclusivamente sintomáticas.
A curto prazo, a Secção pretende sensibilizar os psiquiatras para a relevância clínica do sono, promover formação estruturada e criar espaços de partilha científica. A médio prazo, ambiciona contribuir para a uniformização de práticas, incentivar a investigação, reforçar a presença da Medicina do Sono na formação em Psiquiatria e estabelecer parcerias com outras sociedades científicas.
Ambas as responsáveis consideram que os distúrbios do sono continuam “claramente subdiagnosticados e, em muitos contextos, subvalorizados”, uma vez que o sono é frequentemente encarado como secundário, quando pode ser um fator causal ou perpetuador da doença mental. A escassez de tempo em consulta, a formação limitada e o acesso desigual a cuidados especializados agravam esta realidade.
Apesar dos avanços recentes, a formação em Medicina do Sono permanece insuficiente e heterogénea, sendo necessário reforçar o ensino pré e pós-graduado e integrar o sono de forma transversal na formação em Psiquiatria.
A Secção quer também fomentar uma articulação multidisciplinar, envolvendo especialidades como Neurologia, Pneumologia, Medicina Geral e Familiar, Pediatria e Psicologia, bem como sociedades científicas nacionais e internacionais. Entre os principais desafios, identifica-se a necessidade de mudar o paradigma clínico, integrando o sono como dimensão central da avaliação psiquiátrica e ultrapassando limitações estruturais e desigualdades de acesso.
Apesar destes obstáculos, as responsáveis acreditam que o crescente reconhecimento científico e clínico da área será um motor de mudança. Marta Gonçalves deixa ainda um convite aos profissionais de saúde mental: “Gostaríamos de convidar todos os profissionais interessados no sono a juntarem-se a esta Secção. A Medicina do Sono representa uma oportunidade de aprofundar competências, melhorar os cuidados prestados aos doentes e contribuir para o desenvolvimento da Psiquiatria em Portugal. Queremos que esta seja uma Secção aberta, dinâmica e colaborativa, centrada na partilha de conhecimento e na valorização da prática clínica.”


