A Secção de Psicopatologia e Filosofia da Psiquiatria da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) vai realizar, entre os dias 20 de fevereiro e 15 de maio de 2026, o curso intensivo online “Psychopathology in Psychiatry – Towards a Better Clinical Practice”, iniciativa que pretende responder ao que considera ser uma crescente tendência para a simplificação excessiva do diagnóstico psiquiátrico.
Segundo o coordenador do curso, Luís Madeira, a formação nasce da “constatação de uma tendência crescente para a sobressimplificação do diagnóstico em Psiquiatria”, uma vez que “a psicopatologia descritiva é ensinada de forma demasiado centrada em listas de sintomas e critérios, com pouca atenção ao fenómeno vivido e ao respeito pela experiência do doente”. O objetivo é, por isso, “repor a psicopatologia como base clínica, conceptual e relacional do diagnóstico e do cuidado”.
Ao longo de sete semanas, o curso procurará aprofundar o conhecimento psicopatológico e reforçar a capacidade de análise clínica para lá da aplicação automática de categorias diagnósticas. De acordo com Luís Madeira, os participantes deverão desenvolver “competências de descrição rigorosa, interpretação fenomenológica, refinamento da entrevista clínica e integração crítica entre experiência do doente, linguagem clínica e modelos científicos”, repensando também os conteúdos à luz de fenómenos que são “co-construídos na relação clínica”.
O coordenador alerta que, num contexto cada vez mais dominado por classificações e protocolos, a psicopatologia permanece central, pois “sem psicopatologia, existe o risco de tratar sintomas psiquiátricos como se fossem objetos naturais, como cadeiras ou pedras, ignorando a sua complexidade interna”. As classificações, embora úteis, “tendem a sobressimplificar e a deixar um resíduo, aspetos relevantes da experiência que não cabem bem na categoria”, sendo a psicopatologia o instrumento que permite reconhecer e trabalhar esse espaço de nuance.
A Filosofia da Psiquiatria constitui outro eixo estruturante do programa. Para Luís Madeira, esta dimensão é essencial porque “fornece instrumentos de clarificação conceptual e de pensamento crítico numa disciplina híbrida como a Psiquiatria”, articulando diferentes níveis de explicação e evitando reducionismos. Além disso, acrescenta, contribui para “melhorar a formulação clínica e tomar decisões mais consistentes quando os casos são complexos ou ambíguos”. A formação reúne ainda uma síntese organizada de mais de 15 anos de trabalho académico e clínico, “condensados num programa intensivo de 7 semanas”, que integra psicopatologia, fenomenologia e filosofia de forma orientada para a decisão clínica real.
Apesar de ser totalmente online, o curso foi desenhado para manter um elevado nível de interação. Segue um modelo de flipped learning, com conteúdos teóricos estudados autonomamente, permitindo que as sessões síncronas sejam dedicadas ao debate clínico. Como explica o coordenador, “o conteúdo teórico é disponibilizado num modelo de flipped learning e as dúvidas, casos e problemas clínicos são trazidos para sessões síncronas semanais, às sextas-feiras, com discussão estruturada com o docente”, garantindo que o formato digital “concentra o tempo síncrono no debate clínico e na reflexão crítica”.
Sobre o impacto esperado, Luís Madeira é claro: “O impacto esperado é uma mudança prática na forma de entrevistar, formular e diagnosticar”. O feedback de anos anteriores aponta para uma “transferência transformadora”, com os participantes a relatarem “maior rigor e segurança na conceptualização clínica, mais capacidade de lidar com casos que não encaixam bem nas classificações e uma abordagem mais fina e respeitadora da experiência do doente”, mudanças que se traduzem diretamente na melhoria da qualidade do cuidado.


